INTRODUÇÃO
Recentemente ganhei de um grande amigo um livro chamado ‘A arte de escrever
cartas’, organizado por Emerson Tin, e lá no início da página 17 se lê que
durante mais de dois mil anos escrever cartas foi o principal meio de
comunicação a distância, que a carta torna os ausentes presentes.
O fato é
que em pouco tempo, a Internet trouxe outras possibilidades e as formas de
comunicação se potencializaram, transformou-se a dimensão de ausente-presente. O
que importa, na verdade, é o que move a mão que escreve e o olho que lê: o
desejo de estabelecer diálogos. Seja por carta ou pela Internet ou de algum
outro modo.
Este espaço se pretende uma plataforma de lançamento ao diálogo.
Disse o velho Nietzsche que ‘tudo o que é pensado por muito tempo torna-se
suspeito’. Se é mesmo assim, aqui se poderá fazer o exercício do
livre-pensar-acima-de-qualquer-suspeita. Porque, diferente de uma tese, um
livro, um tratado, este se pretende apenas um portador de idéias a abordar. Sem
nenhum compromisso com conclusões que perdurem por muito tempo – a menos que não
reste alternativa.
A pauta principal do diálogo? As relações amorosas – o
amor, a paixão, o desejo, o interesse de estar com o outro, a princípio tomados
como sentimentos mais ou menos distintos, apenas às vezes coincidentes.
Muito
já se falou sobre isso. Mas não parece demais retomar.
RESGATE HISTÓRICO:
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PÁGINAS DA VIDA

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FRAGMENTOS DE PRESENTE
Este é o primeiro fragmento baiano que escrevo, se não me engano.
No balancinho da rede, no terraço da Rosana, depois de um cochilo, reparei que o som da festa logo ali não permitiria nenhum tipo de adormecimento mais radical.
Daí ela comentou que, veja só, não há nada de novo no reino da música ao vivo que se canta nas festas de amigos: são aquelas mesmas que vocês estão pensando, nossas velhas conhecidas dos encontros de outros tempos…
Ela até falou “só falta ele cantar Andança agora”, mas o fato é que não rolou.
Resolvi então escrever pra fazer inveja em vocês, que isso também é motivo.
Aqui, além das canções mal cantadas (ao menos hoje não é axé…), tem ventinho, um mar grandioso que um pouco se vê em ondas e outro tanto se adivinha, os navios sonolentos ao longe, a casinha de Iemanjá já adormecida faz tempo, a igreja ao lado de onde às seis da tarde se expandem os sinos em aves e marias diárias, o movimento sossegado da avenida beira-mar a esta hora, um céu de estrelas aqui há poucos metros, as janelas todas – umas acesas, outras recolhidas, a de onde Maíra morou agora apagada e triste… E os cuidados, mimos e agrados de minha amiga.
Isso aqui é uma graça, uma bênção, um presente! Bem diz ela que o melhor a fazer nesta vida é colecionar momentos inesquecíveis. Este é um. Cada momento assim é um sopro que acende a vida.
E pensar que tem gente viciada em futuro…
Como anda sua coleção, a propósito? Há quanto tempo não se alimenta? Se porventura acordasse no céu amanhã de manhã quantas chances teria perdido? Quantaaaaaaaaaaaaaaas? Não creio! Eu, poucas. Já passei da fase de adiar as palavras, de economizar os gestos, de guardar os (im)próprios. Afinal, uma mulher da minha idade há de ter alguma maturidade adquirida, não é mesmo?
Mas daí que eu e Rosana hoje nos acabamos de rir ao lembrar um episódio bizarro de um passado mais ou menos recente. Uma vez ela teve um pico de hipertensão e eu fui junto ao cardiologista, um tal que achamos assim meio às pressas, e entrei na consulta para garantir que ela não minimizasse o tamanho da coisa, que ela às vezes faz isso.
Pois não é que o médico mediu pressão, ouviu coração e pulmão, fez eletrocardiograma, descobriu um sopro, deu remédio de pôr debaixo da lingua, receitou vacina para imunizar o corpinho, deu cartão e disse que estava à disposição? E sabe de quem? De mim!!! Vocês entenderam bem o que eu disse? De mim...
Quando minha amiga saiu de seu camarim eletrocardiográfico quem foi que ela encontrou no outro cubículo, cheia de eletrodos e de olhos arregalados? Euzinhaaaaaaa!
É gente, um médico maluco desorienta qualquer um. Até eu, que sou situada (rs).
Isso só, por hoje.
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DA VARANDA

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FRAGMENTOS DE ARTE E LUZ E OUTROS
Tenho um amigo, fotógrafo da crueza das coisas, que tolamente reclama quando, ao ver suas fotos, eu afirmo que ele é um verdadeiro artista (confiram nas primeiras imagem, logo mais).
Daí tento sempre explicar pra ele que artista nada mais é do que aquele que consegue produzir algum tipo de emoção significativa no outro a partir de algo que tenha intencionalmente produzido. Que a estética – e a criação estética – nada mais é do que a produção intencional de efeitos a partir de um desejo de produzir efeitos. Claro, cada um no seu quadrado, conforme suas próprias possibilidades. Só faltava eu me meter a pintar, esculpir ou cantar, por exemplo... seria um completo fiasco. Meu quadrado é o das letrinhas escritas (às vezes, faladas) e me arrisco, faz tempo, nem sempre com muito sucesso, também com as imagens capturadas por máquinas de fotografar, mas aí já sou bem mais amadora, infelizmente.
O fato é que fico bem feliz quando me dizem que as fotos que eu faço registram o modo como as pessoas gostariam de ser retratadas. Em fotografia, essa é minha melhor possibilidade, eu acho.
Já em relação às palavras escritas, a coisa é um pouco diferente.
A mais linda mensagem que recebi sobre o efeito produzido peles textos que escrevo (para os Fragmentos) foi esta, a seguir. E depois explico por que.
"Escrever sobre o que me emociona fundo é quase impossível pra mim. (Até falar é...) Por isso, demorei tanto pra sentar aqui e começar a preparar uma resposta pra você...
Li seus três fragmentos todos de uma vez, depois de ter passado alguns dias sem olhar o correio eletrônico. Na hora, tive uma sensação meio trágica, que chegou a doer, mas de intenso efeito ‘desrepresante’... Foi como se uma bolha de emoção, pulsante, tivesse sido trespassada e seu conteúdo se esparramasse sem controle, todo misturado: saudade da família e de futuros que eu projetei, esperança no daqui-pra-frente, mas também receios, sentimentos de comunhão e solidão, alguns desejos de manter e inúmeros de transformar, fragilidade e vontade... Muitos contrastes, como você vê.
Pois é, estou longe demais de ter um coração inteligente, o meu ainda é bem atrapalhado! E tenho dificuldade de aprender a viver melhor ou (acho que é a mesma coisa) de praticar a alegria com maior frequência. Que me salve a capacidade de insistir, fortalecida por poucos mas adoráveis exemplos de gente feliz (quase sempre, ao menos), como você."
Claro que escrevo em primeiro lugar porque tenho uma necessidade, íntima e incontrolável, de escrever. Mas quero também produzir efeitos nos leitores, do contrário, ao invés de um blog, eu manteria um diário só pra mim.
Então, quando um de meus leitores escreve um texto como este acima, me sinto capaz de alguma estética através da escrita e isso me anima a seguir tentando efeitos assim.
Tudo isso pra dizer que acho que somos capazes, todos, de alguma arte na vida. Muito embora a maior delas, pra mim, é a invenção da própria vida, que é a arte de produzir os efeitos pretendidos em nosso destino.
Bem, mas daí que fui ver ontem a mostra do Matisse na Pinacoteca, que muito infelizmente acaba hoje – quem de vocês não foi ver, perdeu portanto a chance.
E, de tudo o que mais gostei – vejam só... – foi uma sequência de gravuras em linóleo, que nem era propriamente a especialidade do Matisse. É inacreditável que o cara tenha conseguido produzir, em alguns casos com apenas cinco movimentos de goiva, aquele efeito todo. Sen-sa-ci-o-nal! Adorei tudo, mas especialmente as imagens eróticas, que são impressionantes. Se vocês quiserem ver o conjunto dessa obra, espiem em http://www.franklinbowlesgallery.com/NY/Artists/Matisse/pages/pasiphae/pasiphae.htm
As gravuras em linóleo que me encantaram são ilustrações para a história de Pasiphaé, a mãe do Minoutauro, nosso velho conhecido. Nem todas as imagens que você pode ver no link acima vieram para a Mostra, mas o que veio é suficiente para entender quem era esse cidadão. Pra mim, tal como o poeta Manoel de Barros (“Inventar aumenta o mundo” / “Só as coisas rasteiras me celestam” / “Os desvãos me constam”/ “Só o obscuro cintila”/ “A sensatez me absurda”/ “Tem mais presença em mim o que me falta”/ “Não gosto de palavra acostumada”/ “Palavra que eu uso, me inclui nela” / “Os delírios verbais me terapeutam”) , Matisse era um artista em busca do mais simples possível. E eu adoro o simples. Intensamente.
Bem, mas ainda sobre essa coisa das artes e das estéticas, nesse movimento meio típico dos que estão a meio século, fui atrás de gentes com quem perdi contato ultimamente. E eis que ‘encontrei’ Araguaí Garcia, hoje um artista plástico talentoso. Em seu site (www.araguai.art.br), de onde copiei as imagens abaixo, se lê isso aqui, escrito por ele: “Quero fazer da pintura tudo que ela quiser que eu faça. E obter dela o que a luz permitir”. Descobri que temos uma afinidade que eu desconhecia, ele e eu: em minhas incursões amadoras pelos registros de imagens eu também quero obter tudo o que a luz permitir.
Por fim, uma coisinha ainda, a mais.
Como sabem – até porque estou sempre repetindo – o tempo tem sido para mim uma questão desde há algum tempo. Manoel de Barros diz que “o tempo só anda de ida” e eu concordo, por isso não desapego do assunto.
Então... Estive nestes dias com uma gente bem boa que veio do Rio ‘conhecer São Paulo’ e devo dizer, pessoas, que certas coisas que imaginamos impossível, na verdade, não são. Acreditam vocês quem em apenas 30 horas (com uma van alugada), além de ir na exposição do Matisse (com fila quilométrica e tudo), fomos na 25 de março (sábado cedo, na hora do rapa!), na Praça Benedito Calixto, no Bar da Tita, no Bottina (um restaurante maravilhoso que tem na Vila Madalena, onde se come debaixo das jabuticabeiras), no Bar Brahma (ver um show da sobrinha do Cauby Peixoto, que inclusive deixa bastante a desejar em relação ao tio), no Mercado Municipal comer aquele famoso sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau (e comprar víveres para os lares desprovidos), no restaurante chinês Rong He, onde tem aquela criatura que faz, na mão e diante de nós, o macarrão que a gente vai comer em seguida no nosso próprio yakissoba (http://www.youtube.com/watch?v=XWELAFRBQNM) e na feira da liberdade e nas lojinhas das adjacências e na casa de um e no hotel do outro e tudo? Gente, pode não parecer, mas dá tempo! Garanto pra vocês. Aquelas mesmas 30 horas em que por vezes ficamos fazendo as mesmas coisas mesmas, podem produzir outros efeitos, acreditem. Inclusive dores em partes do corpo que a gente jamais imaginou existirem... (rs)
É isso por hoje.
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LUZ E SOMBRA
Pela máquina do Leonardo Soares


Pela goiva de Matisse

[fotografado na Mostra]
Pelas mãos de Araguaí Garcia

Pelo celular meu mesmo


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A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE
O fato é que estou em terras amazônicas a trabalho.
Dizem as más línguas que a sensação térmica em um dos dias desta semana teria chegado a 50 graus, mas eu duvido: para mim, não passou de 45.
Já padeci de calores assim em outros cantos, Cuiabá por exemplo, onde descobri há alguns anos que existe vento quente. Não foi esse, portanto, o tipo de primeira vez inesquecível que eu tive.
Depois de 30 anos trabalhando na educação, passei hoje pela experiência de ter 100 pessoas - com as quais estive durante a semana - em pé, rezando para mim, para eu ter proteção, para eu ter vida longa, para eu continuar ensinando coisas boas para as pessoas e outros quetais.
Apesar de ser avessa a esses modelos mix de educação com religião, foi impossível não ficar comovida com aquilo.
Sem outros comentários a esse respeito, pois a situação ainda não me permite distanciamento suficiente para falar coisa-com-coisa... Vou falar de outro assunto então.
EM TEMPO
Como sabem, ando um pouco fixada nesse tema do tempo. O Mestre Impiedoso, Senhor do Destino, obriga a lições que não temos como apagar do caderninho.
Tenho uma querida lá da Paraíba que defende um tipo de dialética bastante peculiar, conhecida de alguns de vocês: a dialética do caminhão de melancia. É assim: carrega-se o caminhão com as melancias e põe-se o veículo para andar. Um sacolejo daqui, um desvio do buraco dali, uma arrancada de acolá e as coisas vão se acomodando, as melancias vão achando cada qual o seu cantinho... A lógica é tão rendondinha que o Zeca fez uma versão pagodinho, com aquela história de Deixe a vida me levar. Mesma coisa.
Acontece que esse tipo de dialética serve para umas coisas mas não serve para outras...
As relações afetivas, por exemplo. precisam de cuidado, de tempo gasto com elas, de dedicação, alguma que seja. Deixadas as melancias ao sabor da própria acomodação natural, a vida pode levar justo pra onde não nos interessa estar.
Mas isso é só um exemplo pra ilustrar esse negócio da tal crise dos 50.
Fiquei um pouco perturbada com esse risco, porque estou às vésperas da virada, como bem sabem. Daí fui me aconselhar com uma amiga já no pós-50 e, diante do que ela descreveu, não sei se me tranquilizo ou se me apavoro. Se a crise dos 50 é o que ela disse, eu já tive pouco depois dos 40 (!). Agora não sei se isso é bom, porque assim não vou ter mais nenhuma, ou se é desatroso, porque sou precoce e agora terei de enfrentar já logo a dos 60! Serááááááá? Não mereço isso, vocês hão de convir! Que a reza de hoje cedo me livre dessa má sorte.
Disse minha amiga que no topo dos 50 anos a coisa é mais ou menos assim: você olha para o futuro, para o passado, para o futuro, para o passado, para o futuro, para o passado, para o futuro, para o passado e, se for valente, decide se dar de presente um outro presente. Claro que isso é quando você está descontente com a vidinha torpe, mediocre, absurda, se assim ela for. Se você estiver feliz com as conquistas, não há crise nenhuma e nem nada com o que se preocupar (fique tranquilo).
Pois muito bem, por estar descontente aos 40, me desafiei lá a acertar a rota do destino: mudei de cidade, de estado civil, de enfoque e de vida. Ou seja, essa guerrilha íntima, que tem o Mestre Impiedoso como comandante, essa eu já venci. A guerra já não sei. por isso me preocupo.
Mas aprendi lições grandiosas, não por serem originais, muito pelo contrário, mas porque estão hoje tatuadas no meu jeito. Todas quase já cantadas em verso e prosa por aí, nenhuma novidade. Eis oito delas, que me guiam:
- Amar as pessoas como se não houvesse amanhã.
- Jamais deixar para amanhã o que hoje fará falta a alguém.
- Jamais deixar para amanhã o que hoje fará falta a mim.
- Desafiar o tempo é uma manobra de risco, que eu já não pratico.
- O tempo não pára.
- Tempo perdido não se recupera.
- Falta de tempo pode ser só o argumento.
- A Morte é que governa o Tempo.
Para encerrar, uma última, que Lígia mandou estes dias, do Mário Quintana, segundo consta. Tudo a ver.
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta, em função da falta de tempo,
pois a única falta que terá
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.
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EM RESPOSTA
Caros,
Quem quiser ver as respostas que chegaram para as meninas que protagonizaram os dois últimos Fragmentos (Dinalva, com sua mensagem comovente sobre nossa vida de professoras/es, e a Outra, sobre a ideia de ter um encontro em grande estilo com cada um dos homens que na vida lhe despertaram interesse), vá em Clique aqui para comentar!, que está tudo devidamente documentado no Livro de Visita destes Fragmentos.
A Outra me pediu pra dizer (aos que se manifestaram) que agradece muitíssimo as sugestões e a torcida animada e pra dizer (a todos) que continua aguardando ideias que possam imprimir qualidade ao seu projeto. E informa que, exceto um deles, a quem ela não teve oportunidade de apresentar diretamente a proposta (e o ex-marido, claro, que continua na geladeira, por enquanto), todos os convidados já disseram que ela pode contar com eles incondicionalmente e prometeram dar o melhor de si neste jogo...
Beijíssimos, Rô
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Fernandópolis, 15 de outubro... Escola Estadual Líbero de Almeida Silvares (EELAS) 
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FRAGMENTOS DE PROFESSORA
Ontem à noite comecei a receber as tais mensagens de dias dos professores que circulam na Internet, pensando que não as leria, por razões que agora perderam completamente o sentido...
Hoje, ao acordar, recebo este poema militante da Dinalva Serrate, companheira de muitas jornadas, professora e formadora lá do Rio de Janeiro.
Fui tomada de uma emoção boa e, mesmo sem consultá-la, compartilho com todos vocês, porque o conteúdo autoriza.
Além da lindeza do que ela escreve, o convite final me tocou especialmente, por razões várias, que agora aqui não cabem, mas sobre as quais acho que ainda vou matutar em outra hora... ‘Brincar de viver’, expressão que usei outro dia para explicar um relacionamento que me ocupa boa parte da vida (e tem tudo a ver com o dia de hoje) será a palavra de ordem neste 15 de outubro – e espero que sempre, por toda a minha vida, até o fim dos tempos.
Faço meu também o convite, que é para todos vocês, nós todos, mas hoje quero endereçar principalmente à Rosana. Ela sabe por que.
um abraço,
de professora,
da Rô
PS. E, para desanuviar das caraminholas, segue aqui um presentinho de Dia dos Professores. Basta clicar no link e a vida será outra. Pelo menos por uns minutos. Claro que foi a Rosa, minha mestra, que mandou...
http://www.gustavoguimaraes.com.br/arquivo/images/papelbolha.swf
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Queridas companheiras e companheiros,
Acordei hoje chorosa e sensível porque é Dia dos Mestres. Fiquei pensando em tudo que me fortalece e entristece neste ofício.
Como professora da rede pública, às vezes me sinto muito frágil diante das dores e da realidade de nossos alunos que gritam que ter vez para falar, comer e viver está acima (e deve estar) do desejo de conhecer.
Tentando não me perder e não perdê-los, procuro dizer a eles, com a mesma segurança de outrora, que sou feliz porque trabalho no que gosto e no que escolhi; que sou professora por opção e não por falta de oportunidades. Digo com muita ênfase que tenho muita clareza do meu papel de educadora e do que posso oferecer a eles em relação a saberes e aprendizagens. Porém, quando dou por mim me vejo tentando ser dançarina, cantora, coreógrafa, atriz, psicóloga, assistente social, e tudo o mais que possa garantir que eles não desistam antes do tempo e percebam que conhecimento também é alimento para vida.
A indignação diante das ações políticas (e também do cotidiano), ou a falta delas, às vezes aparece fantasiada de resignação, quando antes só impulsionava o meu desejo de “querer fazer a diferença”.
Compreendo e sinto o desgaste que a vida e a profissão nos trazem e me lembro que li em algum lugar que as nossas verdades não são eternas e que muitas delas se perdem nos estrada, por isto não podemos colocar nelas mais certeza do que elas podem conter. Mas penso que aquelas que alimentam a nossa alma e a nossa ação nunca deveriam envelhecer. Por isto, hoje madruguei para dizer que se há vários fatores que me enfraquecem, há outros que estão ao lado na forma de parceiros de sonhos, de luta e de caminhada que me fortalecem muito mais. Daí VEM o convite de Guilherme Arantes, que agora eu faço meu, para lhe desejar um feliz DIA DOS MESTRES:
“Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
Redescobrir o seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia a dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim
Que a história não tem fim
Continua sempre
Que você responde sim
A sua imaginação
A arte de sorrir
Cada vez que o mundo diz não
Você verá
Que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
Não esquecer
Ninguém é o centro do universo
Assim é maior o prazer
Você verá ...
E eu desejo amar
A todos que eu cruzar
Pelo meu caminho
Como sou feliz
Eu quero ver feliz
Quem andar comigo
Vem”
Um grande abraço,
Dinalva
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FRAGMENTOS DE 50
Caros, escrevo hoje para compartilhar uma coisa meio inusitada...
Tenho, claro, muitas amigas e conhecidas gerais da safra de 59 e que, portanto, fizeram ou farão 50 anos em 2009.
Então, pois não é que uma hoje me contou que resolveu se dar um presente digamos assim... meio singular, meio plural – aliás, singular e plural demais para os meus critérios, acho...
A nega resolveu que vai marcar os seus cinqüenta anos (disse que faz questão do trema nos cinqüenta anos dela e eu faço questão também nos meus...) convidando todos os (não muitos) homens que lhe interessaram na vida para umas horas de sexo, prazer e erotismo no melhor modelito – que, claro, ela julga ser o dela. Diz que merece essa graça.
Daí que ela estava um pouco alterada porque fez a proposta primeiro para o ex-marido, com quem foi casada por mais de dez anos e sempre se pegou muito bem, e o cara falou que ia declinar do convite porque não gosta de lista, nem de fila, nem de revivals desse estilo...
Eu disse a ela que não se preocupasse, que o que conta não é o que os homens dizem (que eles nem sabem o que dizem, tamanho o medo que têm das mulheres), mas o que sentem e pensam e tal e tal. Com essa conversinha ela se tranqüilizou – disse que vai pegar o cara na primeira oportunidade e que ele não terá nem tempo de pestanejar.
Foi agora fazer a proposta para o segundo da lista e estou aqui a torcer para que o cidadão não seja tolo como o ex, que, não fosse eu e minha psicologia Dü Butekin, ia perder completamente a chance.
Agora eu, gente, vou me contentar com um bolinho com 50 velinhas, que sou conservadora, nunca escondi e não me envergonho.
Mas, como – por princípio, por meio e por fim – respeito cem por cento a diferença, estou na maior torcida para que minha conhecida tenha êxito em seu projeto que, sinceramente, não me parece assim tão mau... O que vocês acham?
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FRAGMENTOS DE TEMPO
Há mais de nove meses tenho em mim um texto em gestação, mas nem por isso já poderei dar à luz... A despeito de nosso desejo, há gestações de períodos bem maiores e esse é um caso.
O texto é sobre o tempo e a nossa demasiado moderna relação com ele. E daí, claro, é também sobre a [falta de] experiência, sobre a presença [des]atenta no mundo, sobre a [in]delicadeza, sobre os momentos especiais que podemos colecionar [e nem sempre o fazemos] no transcurso da vida.
Como vêem, não é fácil parir um discurso amoroso sobre fragmentos assim tão delicados...
Por isso ainda não estou podendo.
Tudo começou no fim do ano passado, a partir de uma indignação pessoal com humanos que dispõem do tempo alheio conforme as próprias necessidades, depois tomou certa forma em uma conferência da Maria Rita Kehl sobre a delicadeza, depois pela leitura de seu livro ‘O tempo e o cão’ e em conversas de todo tipo com muita gente, comigo mesma principalmente.
Me desculpo com quem já andou cobrando o nascimento desse filhote. O que posso fazer no momento é iniciar o trabalho de parto com mais um teste, à semelhança dos anteriores.
Antes, porém, transcrevo aqui a pulga que encontrei na orelha do livro, em que Adauto Novaes o apresenta aos leitores:
Este livro de Maria Rita Kehl nos convida a pensar certo tipo de homem que vive neste mundo de forma muito original: um homem ao mesmo tempo obscuro e brilhante, ativo e miserável, que lida o tempo todo com o esperado e o inesperado e que, por sua condição incerta, incorpora todas as contradições: potência e impotência, resignação e revolta, ordem e desordem. Um homem de voz velada, silenciosa, dirigindo-se a si mesmo - aparentemente sem interlocutor...
Pois bem, feitas essas preliminares breves, seguem alguns fragmentos de múltipla escolha, que tratam um pouco (só um pouquinho) de como muitos de nós vivemos e nos relacionamos com o tempo.
__________________________________
[Cont]
1. Passam horas, passa o dia, passam dias, semanas, meses, anos até, e você vive se dando conta que não fez o que tinha que ser feito segundo os seus próprios critérios?
( ) SIM ( ) NÃO
2. Você constantemente perde oportunidades de viver experiências que lhe acrescentariam em qualidade de vida porque se aliena no cotidiano de afazeres que proliferam a todo instante ou porque não reconhece o valor que elas têm/teriam?
( ) SIM ( ) NÃO
3. Você gasta a maior parte de sua energia com contatos irrelevantes (pessoais e/ou profissionais) impostos pela necessidade do ‘dever ser’ ao invés de investi-la em relacionamentos que dão/dariam sentido à sua vida?
( ) SIM ( ) NÃO
4. Você acumula faltas, falhas e ausências em relação às pessoas que você mais quer bem?
( ) SIM ( ) NÃO
5. Você viaja sem olhar pela janela?
( ) SIM ( ) NÃO
6. Você come sem degustar, sem prestar atenção no que faz, sem consciência dos sabores?
( ) SIM ( ) NÃO
7. Você come telefonando, vendo e-mails, lendo jornal, escrevendo ou assistindo televisão?
( ) SIM ( ) NÃO
8. Você de vez em quando se olha no espelho e se dá conta de há quanto tempo realmente não se vê, não se observa com atenção?
( ) SIM ( ) NÃO
9. Você toma banho sempre correndo?
( ) SIM ( ) NÃO
10. Você transa pouco e ligeiro (e às vezes pensando em outra coisa)?
( ) SIM ( ) NÃO
__________________________________
[Cont]
11. Você tem dificuldade de ficar sem fazer nada?
( ) SIM ( ) NÃO
12. Você dedica quase todo o seu tempo à vida profissional?
( ) SIM ( ) NÃO
13. Você dedica pouco tempo aos seus amigos?
( ) SIM ( ) NÃO
14. Você liga instintivamente na CBN (ou outra do tipo) ao invés de ouvir músicas que lhe conectariam com as boas coisas da vida?
( ) SIM ( ) NÃO
15. Você se acha displicente quando não lê jornal, principalmente nos finais de semana?
( ) SIM ( ) NÃO
16. Você é incapaz de dizer ‘não’ a demandas, solicitações e propostas que só fazem aumentar seus afazeres cotidianos?
( ) SIM ( ) NÃO
17. Você acredita nos seus próprios argumentos de que não tem tempo para fazer tudo o que acredita que gostaria?
( ) SIM ( ) NÃO
18. Você raramente cumpre com as promessas que faz todo ano, em 31 de dezembro?
( ) SIM ( ) NÃO
19. Você tem dificuldade em pensar radicalmente em sua própria vida?
( ) SIM ( ) NÃO
20. Você disse ‘SIM’ a dez ou mais itens deste teste?
( ) SIM ( ) NÃO
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[Cont] ATENÇÃO Se você respondeu SIM a quase todos os itens, saiba que a situação é gravíssima. Mas têm solução, não se desespere. As pessoas que fizeram esse teste enquanto ele estava em fase de elaboração (eu, inclusive) se surpreenderam com os avanços que tiveram nos últimos tempos em relação à maioria dos aspectos avaliados. Isso leva a crer que – com muita vontade, persistência e garra – você tem boas chances de se curar desse mal da modernidade: a falta de tempo. De tempo para a experiência. De experiências de fato. Para tanto, você pode começar orando, para fortalecer seu propósito. Repita a prece abaixo (de São Jorge Larrosa), pelo menos três vezes ao dia, prestando atenção nos sentidos todos (os dela e os seus): Parar para pensar, Parar para olhar, Parar para escutar, Pensar mais devagar, Olhar mais devagar, Escutar mais devagar, Parar para sentir, Sentir mais devagar, Demorar-se nos detalhes, Suspender a opinião, Suspender o juízo, Suspender a vontade, Suspender o automatismo da ação, Cultivar a atenção e a delicadeza, Abrir os olhos e os ouvidos, Falar sobre o que nos acontece, Aprender a lentidão, Escutar aos outros, Cultivar a arte do encontro, Calar muito, Ter paciência E dar-se tempo e espaço.
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